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Os arautos

Filtro infravermelho Vale do Catimbau, Pernambuco, Brasil

No rádio, uma música antiga, esquecida. As batidas tomavam conta de seus passos, marcando um ritmo frenético e pulsante, como se estivesse lá, em meio a multidão, sentindo o chão vibrar, as respirações aceleradas, as luzes quentes. Então chiado. Ele bateu a mão na lateral desgastada, onde a tinta laranja já desprendia-se em largos flocos. Após o terceiro tapa, o rádio calou-se, emitindo apenas um zumbido baixo, quase inaudível. Com um estalo de desgosto da língua, atirou-o sobre uma pilha de entulho no capim rasteiro. Ergueu a gola do casaco, ajustou a bolsa e esfregou o pulso, ainda sentindo resquícios da torção. Então continuou. 

Era o sexto dia. Já passara por todos aqueles depósitos imundos e abandonados, jogados às moscas, todos com um ameaçador silêncio pairando sobre os conteineres e pilhas de sucata enferrujada. Saltou um muro de tijolos cinzentos, parcialmente derrubado, mas o impacto com o chão do outro lado fez o pulso reclamar. Resolveu parar por um minuto, então apanhou o cantil da bolsa e sorveu alguns goles de água. Estava com três quartos do cantil… logo precisaria arriscar-se nas áreas povoadas, ou acabaria morrendo desidratado em meio àquelas areias imundas. 

Uma lufada de vento atingiu-o no rosto, trazendo o odor acre de madeira queimando, junto com o bafo fétido que emanava dos depósitos adiante. Ele temia o momento no qual precisasse cruzar a terra-dos-mortos, por isso já evitava a trilha dos mochileiros há dias. Uma gota de suor riscou-lhe a nuca, deslizando para baixo do colarinho e estacionando no meio das costas. Sentiu o cheiro das próprias roupas e teve nojo de si mesmo. Voltou os olhos para o céu, azul turquesa, tapando o sol com os dedos calejados. Estava sendo castigado por uma estrela, impiedosa, que torrava sua carne pelo crime de seus antepassados. A dívida de sangue jamais seria paga, mas os filhos da terra seriam eternamente torturados e julgados. 

Afastou os pensamentos nefastos e continuou a caminhar, os lábios ressequidos. Já havia alguns dias que sua bota direita estava cortando-lhe os dedos, mas achava por bem não expor a ferida ou ela poderia infeccionar. Além disso, preferia poupar-se de vê-la. Ouviu uma cigarra chiar num capinzal mais ao norte, no qual diversas peças metálicas cobertas de fuligem e ferrugem repousavam, meio cravadas no chão, meio apontando para o céu. Sentia-se ligeiramente mais confortável quando cruzava com essas esculturas curiosas, pois podia fingir que alguém passara por ali há pouco tempo. Estupidez. 

Apanhou a bússola, que repousava no bolso externo do casaco, e constatou que estava no rumo correto. Talvez o rumo não significasse mais tanto, já que, para qualquer lado que olhasse, veria o vazio. Retinto e lúgubre vazio, cosido por escombros de uma era esvaída, arrancada de todos com as unhas. A história havia sido apagada e, em seu lugar, haviam colocado a morte. E o medo. Mais uma vez afastou os pensamentos e tentou concentrar-se no caminho, um pé após o outro.

Diabo, essa droga de bota tá me matando!

Mais a frente, no capinzal, a cigarra tomava fôlego para recomeçar seu chiado. Ele estava começando a se irritar com aquele silêncio cortado apenas pelo inseto insolente. Havia se acostumado com o rádio, mesmo que tocasse a mesma música, a mesma batida. Deveria saber que não era mais possível acostumar-se com as coisas, já que elas iam embora com facilidade. 

Passou por baixo de uma viga gigante, um retorcido de metal avermelhado e fios prateados, envoltos em blocos de pedra que se esfarelava ao toque. Mais outros dele vertiam da mesma fonte, como uma aranha titânica prestes a deixar a toca, em busca de uma presa distraída. 

Ele não vivera no mundo de antes, no mundo em que tudo era imperfeito e terrível, mas, mesmo assim, era diferente. Sabia que as aranhas de metal e as esculturas que salpicavam aquele deserto inóspito, um dia, haviam sido moradias e vilarejos dos velhos homens, os homens livres, os homens do outro tempo. Todos contavam a história como sendo feita pelos homens, mas frequentemente esqueciam que fora uma mulher que salvara boa parte de seus antepassados, aqueles que haviam criado as colônias e restabelecido um pouco da vida. Não sabia bem como eram as coisas antes, mas seu pai lhe contara coisas que ouvira do pai dele, seu avô, sobre grandes colônias limpas e ricas em água e alimentos, na qual você nem ao menos precisava criar os animais ou plantar os legumes.

Ele também ouvira falar de imensas criaturas feitas de metal, como robôs, que podiam cortar os ares e levá-los para qualquer lugar em minutos! Seu pai arriscava dizer que já até haviam saído do planeta, mas ele sabia que isso eram histórias que contavam para as crianças não perderem a esperança. Então parou, os músculos retesados. Estava atrás de uma larga coluna de metal e concreto quando ouviu gritos, ecoando ao longe. Esgueirou-se para trás de outra viga, tentando conseguir uma visão clara do horizonte, quando confirmou suas suspeitas: uma imensa bandeira vermelha, com uma ave branca no centro, dançava sob o ritmo ditado pelo vento. Seu arauto era um homem careca, branco demais, com uma túnica odiosamente pesada, pescoço coberto de contas e adereços. Junto com ele, estavam outros cinco ou seis homens, todos vestidos como soldados, portando fuzis e facões.

Estavam voltados para um grupo de pessoas, que encontrava-se de joelhos na areia escaldante. Mochileiros. O arauto profetizava algo para eles, tomando as palavras emprestadas de um livro que segurava, enquanto os soldados mantinham os olhos sobre os mochileiros, impassíveis. Ele arriscou esgueirar-se para trás de outra viga, que ficava numa subida a frente. Teve que tomar cuidado para não se enroscar no ninho de fios que pendia de lá. Acomodou-se a tempo de ver que o arauto havia encerrado seu discurso e agora fitava o grupo. Ele conseguia ver que eram quatro pessoas, uma mulher, um homem e duas crianças. Deus, era uma família! Sentiu seu coração acelerar, as mãos começaram a tremer. Sem perceber, estava com a pistola na mão, dedo no gatilho.

“Puto, o que tá fazendo? São cinco pra um!

O arauto voltou-se para a construção na qual estava escondido e, por um instante, perdeu o ar achando que havia sido visto, mas o homem esquálido apenas continuou seu discurso abruptamente, apontando para o céu e para o chão. Sabia o que ele estava dizendo… sabia exatamente o que aquele profeta do diabo estava recitando para a família. O arauto voltou-se para os soldados novamente, então ele pôde voltar a observar. Viu que o menino, o filho, estava chorando e a irmã tentava consolá-lo. No chão, as mochilas estavam rasgadas e as poucas coisas que portavam, atiradas na areia. O arauto ergueu a barra das vestes, para não tropeçar, e aproximou-se das crianças. Ele apertou o cabo da arma, sentindo as entranhas pegarem fogo. 

Alguns minutos de silêncio, o arauto ajoelhou-se perto da menina e do menino, proferindo mais palavras mentirosas. Após alguns instantes, os filhos desvencilharam-se dele e, suavemente, aproximaram-se dos pais. Os soldados entreolharam-se. A família se abraçou e as crianças seguiram para o lado do arauto, que os amparou até um veículo que estava parado ao lado. Abriu o compartimento traseiro, para que pudessem entrar e, em seguida, cerrou-o com amabilidade. Voltou-se para os soldados e, sem dizer mais nada, entrou no carro, dando a partida e rumando para o norte. O pai e a mãe se tocaram, apoiando um a testa no outro. Ele dizia algo para ela. 

Então os soldados ergueram as armas e, numa rajada, fuzilaram-nos. A areia tingiu-se de vermelho escuro. Ele pôde ouvir as crianças berrando no carro, que ia para cada vez mais longe, deixando um rastro de poeira atrás de si. Tinha duas escolhas e ambas pareciam desgradáveis: poderia ficar ali até que os soldados fossem embora, ou poderia pegá-los de surpresa e acertar uma bala no peito de cada um. Eram cinco, mas apenas dois portavam fuzis. Os outros estavam com facões enferrujados nas mãos e um cinto atravessado no tórax, repleto de pequenas esferas negras. 

Refletiu por um momento. Sabia que derramar o sangue dos soldados o saciaria por agora, mas o arauto era o verdadeiro criminoso. Deixou-se ficar na sombra, enquanto os homens rudes saqueavam as coisas do casal assassinado, enchendo os bolsos e rindo. Alguns minutos depois, todos saltaram sobre um jipe e partiram, deixando um silêncio macabro atrás de si. 

Ele enfim saiu das sombras, acompanhando a suave descida até o vale onde presenciara aquele crime. Uma poça escarlate crescia sob os dois corpos, já machucados pelo sol e pela vida, marcas profundas onde as balas penetraram na carne. Notou que ali, atirado na areia, havia um pedaço de papel mais brilhante. Apanhou-o, sentindo o estômago revirar. Era um trecho do livro dos arautos, arrancado a mão e manchado de sangue. 

Ora, pois os homens de boa vontade hão de submeter-se à vontade d’Ele, sem hesitar e nem questionar. Pois maiores são seus planos e Ele sabe onde devem ir. 

Amassou o papel e atirou-o para o lado. Não precisaria mudar sua rota, pois a cidade dos arautos era mesmo seu destino. Cuspiu e abaixou os óculos, colocando-se na trilha que os carros haviam deixado para trás.