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Audentes fortuna iuvat.

“A fortuna favorece os audaciosos”. Este era o lema escrito com letras adornadas, na parede caiada e já recoberta de um pouco de musgo, pouco abaixo do brasão do Colégio Madre Sacra, o melhor da cidade. Era, também, um dos únicos. Durante as manhãs nubladas e um tanto frias, quando as nuvens deslizavam preguiçosas pelo céu de Providência, os grandes portões de ferro tingidos de um azul duvidoso se abriam, dando passagem para os mais de setecentos alunos matriculados.

Otávio observava o letreiro enquanto caminhava para a entrada, moletom cinza amarrotado cobrindo o corpo franzino, cabelos desgrenhados e pretos, seus olhos de amêndoa desconfiados e fitando o chão. O cadarço do tênis esquerdo estava rebelde hoje e não queria ficar amarrado de jeito nenhum. O garoto aproximou-se de uma árvore seca e velha que ficava no pequeno jardim da entrada, antes das imensas escadarias que davam acesso ao pátio central do colégio. Ali agachou-se, distraído, para colocar ordem no reino dos próprios pés.

“Oi-távio, oi-tário”, uma voz conhecida e irritante soou do meio da pequena multidão de estudantes, acompanhada de risinhos debochados.

Otávio não fez questão de levantar a cabeça e permaneceu concentrado, laçando o cadarço como queria laçar o pescoço daqueles rapazes babacas.

Levantou-se, solene, lançando um olhar comprido para a maré de estudantes que atravessava os portões azuis. Não conseguia deixar de imaginar que o velho Colégio Madre Sacra era a imensa cabeça de um deus adormecido, a língua esticada na forma de escada. Todas as manhãs, ele engolia centenas de pequenos humanos só para, com indigestão, cuspí-los no fim do dia, quando o sol tingia o céu de vermelho-alaranjado.

O garoto endireitou-se sobre os próprios pés, ajeitou a mochila, puxando as alças com as mãos na direção do peito, respirou fundo e meteu-se no meio do burburinho, na direção da entrada. Para muitos, apenas uma manhã comum e sem graça.

Para ele, uma manhã dolorida e difícil, como a de ontem. E a de anteontem.  E todas as manhãs, tardes e noites durante as quais vivia dentro de si mesmo, ouvindo e falando com os demônios que habitavam aquele corpo de carne, osso e desconfiança.

Era quieto, muito quieto, por isso queriam falar com ele — sabiam que não viria resposta. Vivia em seus próprios mundos, que tentava conectar ao de cá usando pincéis, guache e papéis em branco. Também sabiam disso, então tentavam roubar seus mundos e tirar seu significado, torná-los apenas rabiscos, lixo. Ele era muito melhor quieto e pensativo do que apresentando um seminário ou — por tudo que há de mais sagrado! — na educação física.

Não se achava diferente, muito pelo contrário. Era apenas ele, Otávio, nascido em Providência mas desesperado para sair dali, daquele lugarzinho que somente sabia conformar seus pequenos moradores, transformando-os em mais do mesmo, numa gigantesca massa sem cor e sem forma e sem cheiro e sem gosto e sem… vida. Mas o que ele pensava pouco importava para todos os outros, que achavam-no quieto demais, sonhador demais, magro demais, cansado demais ou estúpido demais. Por vezes, achavam todos ou até alguns a mais. Assim, num movimento estapafúrdio, tiraram até mesmo aquilo que o definia da forma mais ancestral, numa tentativa amarga de configurá-lo de acordo como queriam.

Havia dias que ele era Otário, em outros, ele era o menino do canto.

Por fim, concordaram em Otto, com um adendo: Esquisito.

Otávio passou a ser Otto Esquisito, pelos quatro cantos do Colégio e da cidade, o que significava que ele era Otto Esquisito em todo seu microcosmo. Era definitivo, havia perdido a batalha por si mesmo contra os odiosos outros.

Atravessou os portões e ganhou acesso ao imenso pátio cercado de muros e grades, com uma fonte bem no centro. Anjos barrocos brincavam uns com os outros, enquanto a água corria calmamente de um jarro segurado por uma mulher de pé, no meio. Algumas árvores antigas já abrigavam grupos de alunos conversando, aqui e ali, bem como as mesas próximas da cafeteria.

Antes de tornar-se colégio, o prédio havia sido utilizado como um convento para as freiras da igreja vizinha, portanto sua arquitetura era bastante diferente daquela esperada para um espaço educacional. Paredes demasiadamente altas, portões com adornos na forma de cruzes, janelas com vitrais e figuras bíblicas e pequenas salas que ficavam sempre fechadas eram apenas parte do cotidiano de seus alunos, todos ou quase todos moradores da cidadezinha.

Com a arquitetura e as imaginações ferozes de centenas de crianças e adolescentes, logo surgiram histórias de freiras embalsamadas atrás das paredes, padres insanos que andavam arrastando correntes durante as noites e até mesmo túneis secretos que ligavam as saletas do colégio com a sacristia na igreja. Eram, claro, apenas crendices que os veteranos contavam para os calouros, na expectativa de arrancar um susto ou outro.

O colégio ficava ligeiramente afastado do centro da cidade, numa região próxima ao Parque da Mina — uma reserva ecológica nos arredores da cidade onde, de acordo com os registros históricos na Biblioteca Central, ficava a antiga mina desabada onde haviam sido soterrados centenas de mineiros trabalhadores. O conto, que era conteúdo obrigatório no Colégio, carregava muito da história da própria cidade e de sua fundação, como diziam alguns, um tanto sombria.

Por estar ali, à beira do parque, com belas paisagens matinais com as árvores e as colinas distantes, era praticamente impossível que todos os alunos pudessem chegar até o Colégio com uma breve caminhada diária. Por isso, a prefeitura havia disponibilizado uma pequena frota de ônibus, que buscava e deixava os alunos numa rota pré-determinada, começando do outro lado da cidade. 

Às seis da manhã, o ônibus saía do ponto perto da antiga fábrica Tannenbaum, na região industrial de Providência, com altos prédios sisudos cheios de escritórios, parques pequenos com árvores atarracadas, alguns hotéis que sempre estavam recheados de estranhos das cidades vizinhas atrás de negócios e, claro, o imenso parque industrial onde ficava a imponente Tannenbaum. Nessa parada subiam alunos como Boris sisudo, o Igor mecânico, o padeiro e confeiteiro Antero, Julia pequena e Julia grande, a Anitta dos gatos, a Soraia-Sorriso e mais alguns. Eram os jovens estudiosos, filhos de pais que passaram a vida na indústria e que morreriam pelo velho Friedrich Tannenbaum, bisneto do imigrante que havia fundado a fábrica.

Seguindo pela estrada longa que atravessava a cidade, passando pelas colinas baixas e margeada por bonitos ipês amarelos, roxos e brancos, as próximas paradas eram nas vilas que ficavam distantes do centro. A localização, cercada por bosques e lagoas, fazia com que tivessem um aspecto belo e afetuoso, lembrando tardes quentes de verão na casa dos avós, brincadeiras na rua com os amigos e, quando caía a noite, jogos de tabuleiro na sala. Ali, em geral, embarcavam a Ana das flores, Elio com suas raquetes, a Teresa e seu sempre-novo-celular, além da Maya militante e de outros jovens coloridos. Eram os sorridentes e de pais preocupados em afastá-los da algazarra da cidade.

O ônibus seguia, então, até o centro de Providência, muito mais atribulado. As árvores davam lugar a parques espaçados, com grandes casas e alguns prédios antigos onde funcionavam escritórios de empresas, consultórios médicos e órgãos do governo local. Apesar de pequena, Providência era extensa e bem populada, com famílias que já estavam ali há gerações, até mesmo quando a cidade ainda nem existia. Ali, saltavam para o ônibus a maior parte dos alunos, como o enxadrista Benjamin, a Maria festeira, os gêmeos Chang, as inseparáveis Paula Beth e Paula Cintra, o pequeno Raul e, claro, Lu Angela com sua trupe de artistas.

O ônibus, então, seguia para a pedregosa e costeira região da cidade, descendo a estrada do moinho, com suas curvas à beira de um despenhadeiro que dava direto no mar. Ao acelerar por ali, era comum que o velho Tobias, motorista há mais de 15 anos, ouvisse as crianças mais novas do fundo soltarem gritinhos e as mais velhas da frente risinhos debochados.

Então o ônibus serpenteava pelos bairros nobres de Providência, com suas imensas casas voltadas para o mar, grandes condomínios fechados e com seus próprios clubes de remo, surfe, natação e esgrima. Ali, subiam o Beto Búfalo, capitão do time de futebol e filho do prefeito, bem como a Susana surfista, Victória rebelde com suas três seguidoras fiéis, Tina, Mel e Sarah, além de diversos membros do time de futebol.

Subindo novamente as colinas, as últimas paradas do ônibus escolar já eram nos arredores do Parque da Mina, em outros vilarejos cercados de altos muros, alguns onde viviam os mais antigos moradores da cidade, sempre próximos do parque, do verde, da natureza. Era ali, numa cabana de madeira afastada de tudo e de todos, no meio de um bosque privado e perto somente do ponto de ônibus na beira da estrada, que morava Otávio.

Eram apenas ele e a avó, a avó e ele. Os pais, ninguém sabia — a avó já estava velha e debilitada demais para falar coisa com coisa. Alguns diziam que eles tinham morrido num acidente de barco, outros que haviam fugido da cidade numa desavença com o prefeito. Os maus e de língua afiada diziam que tinham corrido de horror ao saber que seu filho era Otto Esquisito, mas isso, claro, não era verdade.

Ou Otto se convencia diariamente de que não era.

O garoto desajeitado saltou no ônibus já evitando contato visual com todo e qualquer aluno da escola. Eram uma matilha de lobos selvagens, esperando ele apresentar a jugular para cravarem uma mordida bem servida de molho temperado com seu sangue. Sentou-se perto da janela, colocou apenas um fone no ouvido, ligou a música e esqueceu quem era e onde estava.

Estrada. Escola. Desembarque. Portão. Pátio.

Os sinos tocaram na torre da capela, espantando os pombos e andorinhas que estavam ali próximos, indicando que o primeiro período ia começar. O burburinho no pátio se elevou antes de se acalmar, conforme as alunas e os alunos tomavam seu rumo, subindo as escadas estreitas para o segundo andar ou então descendo para as salas mais baixas.

Passou a mão nos cabelos, respirou fundo e colocou-se em movimento, na direção da sala 12, onde estava a turma do segundo ano do colegial, para a aula de Literatura.