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Eu estava no escuro, completamente submerso. Era um estado de não-ser, não-sentir, no qual apenas as estruturas mais fundamentais da minha consciência conseguiam dar significados rudimentares às formas e sons.

Era como… flutuar no espaço, desapegado de qualquer preocupação física ou de necessidades ancestrais, como respirar, caminhar ou até mesmo pensar. No meio da vastidão do cosmo, do infinito inexplorado, eu deixava de ser alguém — ou algo. Me tornava apenas uma abstração de mim mesmo, observando a tessitura preto-arroxeada do universo.

No entanto, de maneira improvável, ali bem à frente dos olhos que eu não tinha, conseguia ver algo que não devia estar ali. Uma dissonância terrível, potencialmente catastrófica que se avolumava, drenando energia do horizonte de eventos de um titânico buraco negro. Seu brilho já era insuportável, enquanto tomava as formas de um imenso cubo rasgado na superfície da própria realidade. Suas faces contorciam-se sobre si mesmas, ignorando o fato de que minha essência limitada só podia enxergar três dimensões. Eu sabia o nome daquela forma, de algum modo. Era um… era um…

Tesseract.”

Então eu senti, tudo de uma vez só. Meus olhos doíam, assim como o resto do meu corpo. Não conseguia mover um músculo sem que ele se contraísse dolorosamente. Minha mente era um turbilhão de imagens e sons desconexos, que fazia meu estômago embrulhar de desespero. Minhas mãos e meus pés formigam, minhas costas doíam, repentinamente sentindo todo o peso de meu corpo pressionado contra uma superfície irregular e úmida.

Ao longe, conseguia ouvir um som grave que fazia tremer o chão, como se algo imenso estivesse se chocando contra o solo. Era um tremor rítmico, quase orgânico.

Um tremor.

Silêncio, apenas o vento soprando as folhas no chão e passando por meus ouvidos.

Outro tremor.

Minhas sinapses começaram a disparar,  incendiando como um monte de palha.

Mais um tremor.

Lentamente abri os olhos, sentindo a luz do dia agredir minhas íris como uma agulha espetando e atravessando meu crânio e perfurando o próprio cérebro.

Por um momento, não discerni nada ao meu redor, tudo parecia um tanto borrado de tons pastéis. Estiquei os braços para a frente e impulsionei meu corpo no sentido contrário ao do chão, tentando sentar sobre as pernas. Mal conseguia manter a cabeça sobre o pescoço, muito menos raciocinar. Respirei profundamente algumas vezes, pois algo dentro de mim dizia que essa era a melhor forma de tomar controle da situação.

Aos poucos, o enjôo diminuiu e a visão deixou de ser um conjunto de borrões, passando a distinguir contornos, cores e, enfim, formas.

Ergui o rosto, encarando o que colocava-se diante de mim.

Metros e mais metros de uma relva tenra, úmida e emaranhada. Samambaias e dezenas de cipós amarravam-se numa briga por espaço entre as árvores, que eram muitas e extremamente próximas. Os troncos possuíam cascas grossas e recobertas de musgo, bem como boa parte do chão. Próximos do solo, pontilhando-o de cores vivas, centenas de pequenos cogumelos brotavam. O doce aroma de capim fresco e terra úmida invadiu minhas narinas, trazendo um pouco de conforto para minha situação.

Algumas cigarras entoavam sua canção áspera, seguidas por pássaros ao longe. O vento acariciava as folhas no chão e nas copas das árvores, dando a impressão de que eu submergia num mar sereno de sussurros macios. Tentei esticar um pouco as costas, ouvindo-a estalar cada vértebra. Reparei que meu cotovelo estava coberto de sangue seco, o que me preocupou um pouco. Um ferimento quando se está perdido poderia significar problemas graves a longo prazo.

“Perdido.”

Esse pensamento me invadiu repentinamente. Não havia qualificado, até o momento, qual era minha situação, mas perdido me parecia uma boa definição.

Enfim coloquei-me de pé, notando (para meu grande contentamento) que minhas pernas e meus pés ainda estavam inteiros, apesar de tudo. Passei as mãos pela roupa, retirando os resíduos de terra e de folhas que ainda me encobriam, como se isso fosse aproximar-me mais do meu estado civilizado.

Mera besteira humana.

Principiei minha caminhada por entre as árvores, apoiando-me nos troncos a cada onda de náusea e tontura que me invadia. Talvez isso fosse normal, dadas as péssimas condições da minha chegada até ali.

Afinal, que local seria aquele? Minha mente estava ainda nebulosa, como se recordar-me dos fatos passados fosse tão difícil quanto levantar voo balançando os braços. Lembrava-me de berros, sons por hora desconhecidos por mim, frio, vento, dor, queda. Teria eu despencado do céu, em um avião? Não, improvável demais. Afinal, os aviões eram a prova de falhas.

“Que horas…?”

Isso não importava agora. Precisava encontrar um lugar aberto, para verificar onde eu realmente estava. Comecei minha caminhada por entre as árvores, com a cabeça melhor e mais centrada no meu objetivo. Caminhei por duas, talvez três horas sem parar. Então descansei sob a sombra de uma imensa figueira, bebi água de dentro de uma planta engraçada, cujas folhas cresciam em forma de cone. Após a pequena pausa, recomecei.

Eu passava por altas árvores, escalava pequenos amontoados de pedra, esquivava de teias de aranha imensas e, então, parecia que estava novamente no mesmo lugar.

Eu estava andando em círculos! Nunca chegaria a lugar algum. O desespero começava a tomar conta de mim, como um leve frêmito em meu abdômen, esfriando minhas entranhas. E se eu nunca encontrasse uma clareira? Estaria condenado a caminhar eternamente naquele local! 

Novamente, aqueles sons distantes e profundos, como grandes explosões subterrâneas. O chão tremeu e eu, começando a respirar rápido demais, apertei os olhos, tentando me recordar de qualquer informação útil.

Meu coração esmurrava a caixa torácica, fazendo saltar a aorta em meu pescoço. Minhas mãos tremiam, então eu as apertei, cerrando os punhos. Me concentrei na escuridão que eu via bem diante de mim, tentando atravessar o interior de minhas pálpebras e ingressar no mundo das memórias.

Então o Tesseract explodiu diante de mim, com uma luz intensa e quente, como o núcleo de uma estrela de prótons em colapso.

Eu abri os olhos assustado, abafando um grito de surpresa.

Inferno! Precisava correr, assim eu conseguiria cobrir mais território e, quem sabe, encontrar alguém. Usei uma árvore para me impulsionar e comecei a correr, um pé após o outro, tentando manter a respiração sob controle. As árvores passavam mais rápido e mais rápido e mais rápido… até que uma dor aguda cravou os dentes em minha coxa esquerda e eu desmoronei. Tentei agarrar um galho, mas ele quebrou e cortou minha mão.

Caído, virei-me de costas, como havia me encontrado a mim mesmo há pouco. O céu, azul e com poucas nuvens, parecia debochar de mim.

Gritei com ele, esvaziando meus pulmões de toda a frustração que se acumulava.

Merda! O que estava acontecendo? Minhas memórias pareciam gotas de orvalho no meio do oceano. Lembrava-me de alguém chamado… Do… Domenico? Que espécie de nome seria este? Alguma marca, ou coisa do tipo? Também me lembrava de luzes, muitas delas. Luzes demais. Mas isso tudo foi por água abaixo assim que ouvi um som próximo de mim, num matagal ao lado.

Meus instintos primitivos injetaram adrenalina em meu corpo, eu senti a visão se aguçar, a respiração acelerar e as pernas se retesarem, prontas para correr. Sem perceber, eu estava de pé.

E novamente, o som. Era quase um gemido, baixo, próximo e, felizmente, humano.

Caminhei até o som, cuidadoso. Sorrateiro, mas pronto para correr uma maratona, eu afastei alguns galhos e arbustos, tentando entender quem (ou o quê) se escondia no meio da floresta. 

Um homem coberto de sangue estava deitado, o tórax quase totalmente dilacerado. Ele gemia fracamente, como se os ferimentos causassem febre delirante. O peito dele parecia ter sido aberto por um golpe violento. Eu conseguia ver seus músculos e, Deus… suas costelas. Segurei a onda de náusea que se apossou de mim e, ainda chocado com a cena, saltei por sobre os arbustos e me ajoelhei ao lado dele.

“O senhor… quem é o senhor?”

Ele gemeu em resposta, apontando alguma coisa sob uma pilha de pano velhos que estava ali próxima, encostada nas raízes de uma árvore esguia. Me levantei e remexi as roupas rasgadas, encontrando um pequeno pedaço de plástico branco.

Havia uma foto e um nome. Imediatamente, me dei conta de que o homem na foto era o pobre diabo que estava no chão, com um rombo no peito. Seu nome era William Baumer e, aparentemente, ele era um “Pesquisador Chefe”.

Um pesquisador? Esse era o tipo de coisa que eu não esperava. Voltei-me para o coitado novamente, que já encontrava-se pálido como uma folha de papel. Ajoelhei-me e coloquei a mão em sua testa. Ele estava ardendo em febre.

“William, você tem algum kit de primeiros socorros por aqui? Você está gravemente ferido e eu preciso conter o sangramento”, eu disse a ele, um pouco sem convicção.

Ouvi um gorgolejo subindo pela garganta do homem e ele se engasgou, tossindo uma bolha de sangue que escorreu pelo canto da boca, respingando todo o meu braço.

“O que houve aqui William? O que fez isso à você?”, tentei novamente.

Ele balbuciou em resposta, sem dar-me pista alguma do que ocorria naquele local. Comecei a temer que algo realmente terrível estivesse acontecendo ali e eu não conseguia me lembrar dos fatos. 

Sabia que fatos eram muito importantes para mim pois, até aquele momento, eu havia tentado reuni-los e provar algo, o que me levava a crer que poderia também ser um cientista.

Ou somente alguém que gostava de fatos.

“William… vou precisar da sua ajuda. Preciso tirá-lo deste local e colocá-lo onde possamos tratar destas feridas. Se passar o braço atrás do meu pescoço, poderemos caminhar lentamente até perto daquela árvore.”, disse eu, apontando para onde estavam as roupas.

“N… não…”, respondeu William com voz fraca. Seu cabelo grisalho mostrava que devia ter por volta de cinquenta anos. “V… vá…”

“William…”

A mão dele agarrou meu braço enquanto ele tentava respirar, fazendo um som rouco e gorgolejante. Os pulmões deviam ter se enchido de sangue por causa do trauma. Eu apenas apertei sua mão, tentando confortá-lo enquanto segurava as lágrimas que senti se formarem.

“Vai ficar tudo bem, William. Vai ficar tudo bem.”, menti para ele. Morrer era menos pior que morrer apavorado.

Ele tossiu novamente, dessa vez sem forças.

“Vai ficar tudo bem, William… vai ficar…”

O homem havia morrido em meus braços, com os olhos ainda abertos, fitando algo no céu. Talvez a resposta para o enigma que colocava-se diante de mim, mas que eu não enxergava. Deitei-o cuidadosamente, cerrando seus olhos com os dedos. Tentei pedir a algo nos céus que o recebesse, mas isso não fez sentido para mim. Creio que não acreditava em deuses ou algo do tipo.

Então as lágrimas vieram, como se houvesse rompido a barragem de uma represa de dor. Chorei, sentado no chão ao lado do corpo do homem, soluçando, praguejando, odiando aquele lugar e momento.

Perdi a noção do tempo e do espaço, esquecendo-me novamente onde eu estava e quem eu era. Meus olhos apenas fitavam o horizonte emaranhado de galhos e folhas, perdidos na distância. Fiquei ali por um tempo, até recobrar as forças.

O dia já ia avançado, com um laranja morno começando a derramar-se sobre o topo das árvores, desenhando sombras longas por todo o chão de grama e terra.

Respeitosamente, revistei as roupas do pesquisador, encontrando um molho de chaves no bolso de sua jaqueta esfarrapada. Uma delas – a maior – possuía as iniciais P.M. o que, para mim, não fez o menor sentido. Guardei-a no bolso da calça jeans que eu estava usando e, então, tentei cobrir o corpo de William da melhor forma que consegui. Usei as roupas velhas que estavam no chão, mas elas não eram suficientes. Ele era alto e corpulento, então acabei recobrindo apenas seu rosto e o peito estraçalhado.

Me dei conta, de súbito, que não sabia como eram meu próprio rosto ou corpo.

Olhei para minhas mãos, esguias e para meus braços. Eu conseguia ver que minha pele era branca, eu estava usando calças jeans e uma camisa xadrez azul de mangas longas. Desabotoei minha camisa e reparei que era magro e com poucos pelos, com uma pequena cicatriz perto do umbigo. Passei a mão sobre ela, pensando se devia ter sido uma apendicite ou algo parecido.

Passei então a mão pelo meu rosto, sentindo que não tinha muita barba, apenas uma camada áspera. Tentei sentir o meu nariz, comprido e fino, meus olhos, sobrancelhas e, enfim, cabelos. Eram curtos e pareciam já ter sido penteados, mas, agora, estavam sujos e cheios de folhas e terra.

Era uma sensação surreal, quase como se eu estivesse em um pesadelo prestes a acordar. Conseguia lembrar de fatos sobre diversas coisas, como fatos geográficos, formas, processos, informações sobre o corpo humano, sabores de alimentos, mas não conseguia lembrar meu nome, minha aparência ou o que eu fazia ali.

Olhei uma última vez para William enquanto arrumava minhas roupas.

“Me desculpa, William.”, disse, em tom solene.

Continuei minha caminhada inevitável, agora de posse do molho de chaves, deixando o local onde eu havia encontrado o pesquisador e seguindo uma pequena trilha que encontrei. O ambiente mudava um pouco, o que já era animador. Alguns barrancos apareciam entrecortando aquela floresta interminável, criando uma espécie de ondulação na terra que ia ascendendo. Sim, subir seria bom, pois eu teria uma visão global do lugar.

Algumas rochas cobertas de musgo apareciam aqui e ali, surgindo do meio das dobras de terra vermelha. Um gostoso vento soprou minha face naquele momento, sendo ele o prenúncio para o maior espaçamento entre as árvores.

Enfim, elas começaram a ceder espaço para uma subida; um morro. Aparentemente eu estava chegando na beirada da floresta, o que só podia significar uma coisa: ali, depois de vencer os metros inclinados, eu provavelmente conseguiria avistar uma estrada, uma cidade ou qualquer sinal de civilização.

Um pouco mais animado, venci rapidamente a subida, deixando apenas as coxas reclamando e os pulmões ardendo. Estendi meu olhar para depois do morro, notando que era, na verdade, um grande despenhadeiro, numa vertiginosa queda que terminava uns vinte metros para baixo.

Conseguia enxergar um vale que se estendia até onde os olhos alcançavam. Isso criou em mim um sentimento duplo e paradoxal: ao mesmo tempo em que era animadora esta mudança, um vale imenso posava ainda outro desafio, especialmente quando me dei conta de que a noite cairia em breve e eu certamente precisaria de abrigo, ou poderia acabar com o peito arrebentado, tal qual o pobre William.

Isso tudo tornou-se insignificante no momento que me dei conta do que eu conseguia ver logo adiante, mais para frente naquele vale.

E, nesse momento, o mais puro terror apossou-se de mim.