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No entanto, a história mais apavorante que ouviram não foi contada por nenhuma delas, mas sim pela irmã Leonora. A senhora, de cabelos brancos e rosto marcado pelo tempo, contou a história do cemitério da Paz, que ficava do outro lado da rua. Se você parasse na frente dos imensos portões de ferro, logo abaixo do arco da entrada, onde podia-se ler “Orfanato Michelangelo”, conseguiria enxergar o muro alto e a entrada de ferro coberta de hera do cemitério.

A inscrição, no alto dos portões, estava em latim, e dizia “non requiem”, que, de acordo com a irmã Leonora, queria dizer “não descansam”. Ruth havia perguntado o porquê, durante a aula de história, e, então, ouviram a história macabra da cidade.

“Há muitos e muitos anos atrás, Providência era apenas um bosque à beira do mar”, começou a irmã, levantando-se da cadeira e olhando pela janela, quase como se pudesse ver através do tempo, a cidade se desconstruindo e voltando a ser apenas um mar de árvores estendendo-se para o infinito. “Foi então que os primeiros exploradores chegaram aqui. Alguém sabe me dizer o que são exploradores?”, perguntou ela, voltando-se para a turma.

“São homens que exploram”, respondeu Ruth.

A sala riu, seguida pela irmã Leonora, que apanhou um giz e escreveu “explorador” no centro do quadro.

“Exploradores são pessoas, não apenas homens, que buscam descobrir aquilo que ainda não foi descoberto”, explicou ela, sublinhando a palavra. “Há exploradores que procuram por novos lugares para se viver, mas há também exploradores que tentam descobrir coisas que ninguém ainda conhecia, como os cientistas que, dia após dia, descobrem novas formas de usar o vapor para mover as coisas ou então novos remédios para curar doenças graves”.

A irmã repousou o giz na caixa que ficava sobre sua escrivaninha e apoiou-se na beirada da mesa para continuar a história.

“Os exploradores que chegaram aqui, muitos e muitos séculos atrás, vieram atrás de ouro e minérios, como ferro. Havia muito disso sob a cidade, então eles vieram em grandes navios e desembarcaram, em fila, para trabalhar. Como Providência era uma cidade afastada do resto do continente, eles trouxeram suas famílias, com a promessa de começar uma nova vida por aqui. Agora, imaginem vocês, minhas crianças, que eram pais e mãe, filhos, cachorros, gatos e pássaros em gaiolas, todos eles prontos para derrubar árvores, construir casas e viver uma boa vida”.

“E assim fizeram”, a professora fez uma pequena pausa, em que olhou para o rosto das crianças, absortas na narrativa. “Em poucos anos, uma vila já havia se formado no meio do grande bosque, em que chaminés sopravam fumaças perfumadas de cozido pelo ar, janelinhas brilhavam a noite, barcos flutuavam no porto e, mais importante, começaram as escavações”.

“O que são es… ex…”, interrompeu Lara, confusa.

“Escavações são o trabalho dos mineiros e dos arqueólogos, minha pequena. É quando você precisa de algo que está enterrado, então usa pás e outras máquinas para cavar. É claro que, naquela época, eles tinham apenas pás e os braços, então demoravam muito mais para conseguir abrir os túneis do que demorariam hoje”.

“E eles estavam cavando a terra para achar ouro e mistérios?”, perguntou Ana.

A irmã Leonora riu, seguida pela turma.

“Minérios, Ana, como ferro e o próprio ouro. Eles queriam encontrar minérios porque, naquela época, eles valiam muito e isso poderia dar a todas as famílias uma vida tranquila e segura. Então, como eu estava dizendo, começaram as escavações e tudo parecia muito promissor. Encontraram a entrada de uma caverna, logo eles criaram toda uma estrutura ao redor, com tábuas e vigas de ferro, penduraram lanternas e lá montaram a entrada da mina de ouro. Dia após dia, os mineiros acordavam cedo, tomavam café com suas famílias e logo partiam para as minas, para cavar a terra, retirar pedregulhos e afundar um patamar na terra. Acordar cedo, cavar, um patamar mais fundo. Acordar, cavar, afundar. Acordar, cavar, afundar”.

“Assim eles fizeram por muitos meses, até que, finalmente, encontraram algo que não esperavam e que mudou sua vida para sempre. Eles encontraram uma porta, gravada na pedra, que, uma vez derrubada, dava para uma rede de cavernas subterrâneas — significa que ficam debaixo da terra, Linda — que formavam extensos corredores de pedra. Os mineiros se reuniram e disseram que aquilo era impossível! Era como se alguém, há muitos e muitos anos, já tivesse cavado a terra lá e deixado corredores de pedras lisas e retas, como se tivessem sido gastas com limas. Mesmo diante do impossível, eles decidiram desbravar os corredores, em busca de ouro, mas, também, de respostas”.

A irmã Leonora fez outra pausa, desta vez mais longa. Era como se o ar na sala estivesse estranhamente pesado, quase como se ele mesmo tivesse parado para ouvir a história da cidade.

“Eles contam que os corredores eram como um labirinto e que, uma vez lá dentro, era praticamente impossível de voltar. Os mineiros amarravam a extremidade de uma corda na entrada da caverna e a outra na cintura, então ingressavam nos corredores. Diziam eles que o ar lá embaixo era frio e pesado, quase como se estivessem andando debaixo d’água, mas eles não desistiam. Estavam fascinados com aquele lugar, com as pedras lisas e perfeitas, com os símbolos estranhos que pareciam um alfabeto desconhecido para eles. A cada nova expedição pelos corredores, os mineiros demoravam mais e mais para voltar para casa”.

“Suas esposas e filhos começaram a ficar preocupados, então iniciaram a pedir que os mineiros deixassem aquilo para lá, que a vida na cidade era boa o suficiente, que podiam caçar e pescar, derrubar árvores para construir casas e até mesmo erguer uma igreja para louvar ao nosso Senhor, mas eles estavam obstinados”.

“O que são obstinados, senhorita Leonora?”, perguntou Edmunda, atraindo os olhares das crianças para si.

“É quando alguém só quer pensar em uma coisa, Edmunda, como a pequena Patricia e as tortas de limão”, respondeu a freira, ao que as crianças riram gostosamente.

“Os mineiros se recusaram a cessar as expedições”, continuou ela, “indo cada vez mais fundo nos corredores. Chegavam cada vez mais tarde em casa, com olhares perdidos e fascinados, como se algo lá os houvesse encantado. Pouco falavam do ouro ou do ferro que poderiam encontrar, mas reuniam-se no galpão do chefe dos mineiros para desenhar mapas dos corredores, discutir os símbolos que haviam encontrado nas paredes e traçar planos sobre quem iria na frente, quem ficaria com as lanternas e quem desenharia o caminho”.

A professora levantou-se e caminhou até próxima da turma, voltando os olhos para a janela. O sol, lá fora, derramava-se sobre as árvores, tingindo as copas de dourado. Alguns raios mais tímidos passavam pelo vidro das janelas, sendo decomposto em todas as cores do arco-íris que se projetava no chão.

“Depois de muito tempo entrando e saindo de lá, eles descobriram que os corredores deviam ser muito mais extensos que imaginavam, passando por baixo de toda as as rochas onde ficavam as minas e indo mais além, para baixo da floresta e Deus sabe por quantos e quantos quilômetros adentrando a mata. Enquanto os mineiros, enfeitiçados pela descoberta, gastavam longas horas do dia debaixo da terra, os outros moradores do vilarejo fizeram uma assembléia na qual decidiram que os homens precisavam de ajuda, pois deviam estar com a febre do ouro”.

“Isso é uma doença, senhora Leonora?”, perguntou Amanda, enrolando os cachinhos castanhos com as mãos.

“É um tipo de doença, minha querida, mas uma que adoece a mente, não o corpo. Acreditavam, há muito tempo atrás, que quando os homens ficavam sedentos por ouro e riquezas, que acabavam esquecendo quem eram, pessoas que amavam e até mesmo como se portar perante os outros. Então, liderados pelo pároco do vilarejo, decidiram que iam impedir os mineiros de retornarem para os corredores, não importava o que precisassem fazer. No entanto, nada foi feito pois, para o desespero de muitas famílias, os mineiros não retornaram para casa aquela noite”.

Vários gritinhos abafados percorreram a sala, enquanto a irmã Leonora fitava o rosto das meninas, um por um, com uma expressão indecifrável nos olhos.

“Até hoje, ninguém sabe o que aconteceu aos mineiros. A entrada dos corredores estava desmoronada, então muitos acreditam que um deslizamento de terra fez os corredores virem abaixo, soterrando-os para sempre. O tempo passou e o vilarejo virou uma cidade, então muitas buscas foram feitas por lá, dessa vez com ferramentas modernas, para tentar encontrar a entrada dos corredores uma vez mais, sem sucesso”.

O silêncio na sala era sepulcral.

“A entrada para as minas fica onde é o cemitério da Paz hoje, então, meninas, estamos bem ao lado de onde, há muito tempo, devia ser a entrada para as minas onde todos desapareceram. A inscrição no alto dos portões, “non requiem”, significa “não descansam”, porque os mineiros nunca foram propriamente encontrados e, dizem, ainda tentam sair dos corredores. A lenda conta que, se antes de dormir, você fechar os olhos no silêncio mais profundo, ainda vai conseguir ouvir o som das picaretas quebrando pedras, vindo dos confins da floresta”.

Os sinos do orfanato ressoaram, fazendo diversas meninas saltarem das cadeiras e darem gritinhos. A senhora Leonora fitou-as, com um ar divertido.

“Mas isso tudo são apenas histórias para assustar meninas levadas. Agora vão, o almoço deve estar servido”.

Ela não conseguiu dormir aquela noite, pois, cada vez que fechava os olhos, imaginava sons de picaretas quebrando pedras do outro lado da rua. Chegou mesmo a sonhar que, enquanto caminhava pelos pomares e ia se esconder no túnel de raízes, que eles se aprofundavam na terra e de repente ela estava dentro dos corredores, com uma sinistra luz azulada emanando das paredes. Ela podia ver letras riscadas na pedra, vultos de mineiros fantasma caminhando com ela, folhas e maçãs podres no chão. Quando ela se virava, via um cartaz pendurado na parede, escrito com guache, onde ela podia ler “PAS MUNDIAL”. Então ela despertava.