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Michelangelo

Aquele era o seu lar. Podia não ser tão bonito e ter teias de aranha por toda parte, mas a cama era confortável e aconchegante. Pelo menos mais aconchegante que dormir sobre caixas de papel molhadas da chuva, num beco frio e escuro, ao lado da caçamba de lixo. Outra vantagem é que não havia ratos por ali — ao menos não que tivesse visto. Se fossem como os ratos do beco, ela definitivamente teria visto e até mesmo se envolvido numa luta feroz pelo pedaço de pizza que estaria entre eles.

Ela adorava caminhar pelo jardim, enquanto as outras crianças pulavam corda, brincavam de bonecas, comiam biscoitos e liam seus livros. Ela conseguia se lembrar do cheiro adocicado dos limões e laranjas nas árvores, dos pássaros cantando escondidos, dos raios de sol abraçando os galhos e troncos, produzindo sombras dançantes na grama verde. Ela podia sentir o ar morno de primavera afagando-lhe os cabelos e o rosto, como se todo o mundo estivesse ali para confortá-la.

O casarão onde viviam tinha quatro andares, separados por escadas de madeira em zigue-zague. Logo que se adentrava o salão pelas imensas portas frontais, podia-se ver o primeiro lance de escadas, dividindo-se em dois para a esquerda e para a direita. O salão era sempre bonito e bem iluminado, com janelas altas e imensas que estavam sempre escancaradas. Havia estátuas e plantas, quadros e vasos, mas também havia cartazes coloridos feitos pelas crianças durante as aulas.

Em alguns, podia-se ler “Seja bom com os outros” em tinta guache verde; em outros, recortes de jornal tinham o formato de pessoas com as mãos dadas e, no meio, alguém havia escrito “PAS MUNDIAL”. Ela ria toda vez que notava o erro, que certamente não havia sido grafado no cartaz por uma das professoras, mas sim comunicado delicadamente para o autor.

Ela amava as professoras! Eram todas freiras ou devotas, sempre vestidas com o hábito negro de faixas brancas. Em especial, ela gostava da senhorita Belo, que a ajudava a colher flores e amoras, preparava uma bela cesta e depois sentava com ela para tomar chá. Um dia, no seu aniversário, a senhorita Belo havia lhe dado um livro de capa marrom, que contava a história de uma menina que havia viajado numa jangada e descoberto o mundo.

Depois daquele dia, ela havia sonhado toda noite que estava a bordo de uma jangada, com a senhorita Belo e a Doris, que era sua amiga muda, enfrentando dragões, morcegos gigantes, cobras marítimas e piratas.

Doris era baixa, ruiva e de cabelos desgrenhados. Estava sempre andando com um cobertor na mão, de vestidos floridos e sardas no rosto. Os dentes da frente eram ligeiramente separados e ela era tão doce que mais parecia um anjo. Gostava de andar com Doris pelo pomar, brincando de achar maçãs caídas, deitar nas pilhas de folhas e de esconder-se entre as árvores. No fim do pomar, já quase perto do muro, havia um gigantesco emaranhado de raízes que formava uma espécie de caverna, onde ela gostava de se esconder para que Doris não a encontrasse.

Durante a noite, quando iam dormir, faziam uma roda e cobriam-se com o lençol. A pequena Lena tinha encontrado uma lanterna, que, juntas, acendiam e usavam para iluminar a cabana improvisada. Quando a lua estava alta no céu estrelado, contavam histórias de terror, como a lenda do homem-vampiro que mordia o pescoço das jovens em apuros ou a história da criatura que vivia nos pântanos, fora da cidade, que arrastava jovens casais para as profundezas e lá lhes devorava inteiros.

Uma noite, Ruth quis ser engraçada e bateu a mão no chão, no ápice da história, para assustar a todas. Doris deu um pequeno salto e, sem querer, chutou a lanterna, quase incendiando o lençol.