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Fomos avisados. Há eras atrás, quando ainda sacrificávamos em nome dos ventos e das chuvas, quando a terra ainda era jovem, assim como nós. Fomos avisados por uma série tão extensa e infinda de eventos que seria desmedido dizer o contrário, ou ainda lamentar-se sobre as ruínas de um passado inconsequente.

Muitos disseram que seria o clima. Outros disseram que a fome e as doenças seriam as grandes vilãs. Ainda falava-se de armas químicas, biológicas e até mesmo nucleares. Dia após dia, as pessoas escondiam-se nas sombras de ritos, deuses, preces e temores. A cada passada trêmula do relógio, ilhas de gente excluída por detentores do poder minguavam sem a visão de um pedaço de pão seco.

Violência, criminalidade, mentira, tortura, morte.

No entanto, não foi pelas mãos de nenhum deles que sucumbimos. Os alertas eram claros como o dia, saltando diante das janelas de nossos escritórios e de dentro das telas de nossos televisores. E, mesmo assim, não pudemos enxergá-los, não pudemos interpretá-los.

Os primeiros a sentir que algo estava errado foram os animais.

Uma orca atacou a treinadora num parque aquático, transformando o show em carnificina. Os cães estranhavam-se nos parques, fugindo desesperados pelas ruas. Os macacos saltavam no meio do concreto, afogando-se em poças do próprio sangue. As jaulas do zoológico pareciam vitrines de um açougue a céu aberto, com urros de medo, corpos auto-mutilados, sangue, moscas.

Um fazendeiro foi pisoteado por suas cabeças de gado. Naquele dia, ele descobriu que elas possuíam corpo e vontade. E foi ficando pior. As aves entravam pelas turbinas dos aviões ou atiravam-se em queda livre pelas ruas, edifícios, pessoas e qualquer alvo em potencial. Os ciclos migratórios entraram em profusão, desestabilizando o equilíbrio ecológico de inúmeros países.

Era uma crise. Ninguém podia explicar o comportamento anômalo dos animais, numa onda de terror que foi chamada Surto Psicótico Generalizado ou SPG pelas autoridades sanitárias. Novamente, culpavam o aquecimento dos pólos, o estresse e a poluição. Notadamente, uma percepção muito mais que falha.

Então foi o clima.

Primeiro, os países tropicais foram atingidos por um inverno rigoroso. Os países gelados experimentaram tempestades, tufões e furacões como nunca imaginaram antes. O mar castigava a costa, sem hesitar perante as maravilhas que poderia tragar para suas profundezas obscuras e salgadas.

O caos instaurava-se sutilmente. Os mais fervororsos já temiam o apocalipse, preparando as almas imundas de pecado para o julgamento final. Os céticos trabalhavam acaloradamente tentando descobrir qual engrenagem do mundo havia saído do lugar. Tudo estava estatisticamente correto, todos os dados preenchendo sua devida lacuna. Cada conta do terço preenchendo sua porção de reza.

Então, enfim, foram as pessoas.

Como numa pandemia, elas sucumbiram a uma doença invisível e indetectável. Primeiro, vinha a febre. Os delírios galgavam a imaginação mais bem guardada, desenhando planos fracassados, desejos recriminados e ainda aspirações frustradas. Então, vinham as náuseas. Nada mais era tragável para as línguas moribundas.

Quando grandes figuras começaram a adoecer, o pânico foi completo. No rádio, apenas chiado. Na TV, estática. As ruas, desertas de pessoas e crivadas de carros abandonados e enferrujados, fogueiras ásperas, marcas de acidentes. Escolas abandonadas às pombas, hospitais hiperlotados de doentes, animais enlouquecidos nas fronteiras, atacando transeutes desprevenidos no silêncio frio da noite.

Então vinha o coma. Mais da metade do planeta afundou num silencioso e débil sono, entremeado por calafrios e gemidos lúgubres. Os serviços de saúde haviam colapsado há muitos anos, os recursos governamentais já se esgotavam.

Por muito tempo, o silêncio permitiu que o planeta refletisse sobre o próximo passo. Os poucos despertos ainda lutavam para descobrir a causa. Para descobrir o efeito. Esperança era uma piada. Tudo o que se via era a lânguida e infindável estrada vazia, sem perspectivas nem motivações.

Até que, sem aviso ou sinal prévio, todos despertaram.

Foi, sem dúvida, o momento mais terrível que qualquer criança jamais vira em toda sua curta existência. Moribundos vagando para as ruas, inexpressivos, pálidos, cobertos de feridas. Não desembestaram a devorar semelhantes, como as mentes mais perturbadas já imaginaram, muito pelo contrário. Todos rumaram para os locais mais abertos que encontraram, estáticos e mudos, em frangalhos ou mesmo nus. Uma legião de semi-cadáveres. Aqueles que não caíram doentes acompanhavam tudo de longe, temendo uma revolta súbita dos despertos.

Lá ficaram, por horas, sob o sol ou as estrelas, dependendo do lado que ocupavam no globo. Então, no mais síncrono evento jamais registrado, cada qual em seu idioma, vomitaram palavras desconexas, atropeladas, babadas de sangue. Pareciam temores antigos, de algo que estava por vir. Exprimiam terrores inexplicáveis, de uma coisa tão pérfida e macabra que nunca ousara-se falar nela. Estava enterrada, sob os segredos egípcios e maias, sob os zigurates incas, sob os monumentos  herdados de gerações colonizadoras ou colonizadas.

Então caíram, ninguém sabe se apenas exaustos ou mortos. Na verdade, ninguém se importou, pois o que viram depois daquilo apagou qualquer vestígio de tudo. Os céus se abriram, num estrondo de luz. Alguns caíram de joelhos e sussurraram profetas, deuses, santos. Outros xingaram e culparam as partículas. Lembro-me que uma mulher sorriu e abriu os braços, dizendo nomes de parentes já falecidos.

Mas não eu. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo.

E aquilo tudo era apenas o começo.