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O visitante

Eu tinha apenas sete anos quando o vi pela primeira vez. Era grande, como um armário e tinha garras afiadas, sujas de terra e, talvez, de sangue seco. O caminhar fortuito lembrava um gato preparando-se para atacar um camundongo desprevenido… então, num salto inesperado, parte-lhe em quatro.

Eu ficava horrorizado quando caía a noite, pesada e preta da cor do carvão. Da mesma cor da alma daquela coisa. Eu tremia dos pés à cabeça, escondendo os olhos sob a coberta, como se isso fosse impedí-lo de cravar seus dedos cruéis em meu peito e arrancar meu coração, destroçando minha carne e afastando minhas costelas com tanta violência que nem mesmo gritar eu poderia.

Era sempre do mesmo jeito: boa noite, beijo na testa, interruptor, medo, tremores, cobertas, barulho, gemido, sussurro, arrepio, calafrio. Dormir, dormir. Pesadelo, grito. Acordar, bronca, carinho, água, beijo, interruptor.

Eu não aguentava mais, precisava saber o porquê de aquela coisa ter me escolhido, ter apontado a garra torpe para mim e, entre um gemido e um resfolegar entredentes pontiagudos, ter falado com aquela voz rascante de demônio de fora deste mundo:

“Eu quero você…”.