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O menino fractal

Um dissabor áspero esgueirava-se entre as pequenas armações metálicas que envolviam as árvores ainda não crescidas, todas elas plantadas muito jovens, para conferir um ar menos desprezível para aquela pintura móvel. Varandas entristecidas projetavam-se obliquamente para o passar desritmado dos blocos motorizados, encobertos de poeira e de amargura. 

Vez ou outra, três luzes alternavam faceiras do vermelho para o verde, para o vermelho, mordiscando o ego dos menos vagarosos. Sobre as cabeças de cabelo rareando, nuvens espessas que, há eras, não descobriam o sol terno e amarelo-ouro. Um vento lúgubre e pesado cavalgava as costas vergadas dos pobres diabos largados a mais pura e escassa sorte. Sortilégios, a bem da verdade, simulavam feitos e ditos que, num tom descolorido, apenas perpassavam pelos ouvidos apinhados de buzinas e de vozes roucas. 

Era cercada por muralhas desgastadas, até mesmo com pedaços de papel antigo e esburacado, alguns pouco rabiscos desinteressantes. Fios, fios e mais fios cruzavam os sete céus, todos eles entrelaçados, embolados, amarrados, remendados ou desencapados. Um ou outro cão magro e de olhos profundos raspava os cantos úmidos das esquinas esquecidas em busca de alguma pouca bagatela de comer. 

Não havia pássaros. 

O silêncio ruidoso da indiferença vertia dos bueiros profundos e atulhados, deslizavam sobre o asfalto quente e velho, como tentáculos maliciosos, agarrando-se às pernas de qualquer desavisado que, semimorto, arrastasse os pés numa caminhada torturante de volta para a toca escura onde omitisse sua existência. 

Assim seguia o tempo, mesmo que não seguisse de fato. Apenas estaciona aos nossos lados, apanha-nos pela mão e atira-se ao precipício, acalentando nosso medo com um embalo ritmado.

Tic-tac-tic-tac.

Um sino reverberou, opressor, levantando uma revoada de pombas poeirentas. Mais um sopro de vento arrastou folhas secas, sacos transparentes e papeis antes importantes. Tudo já foi importante em algum momento. No outro, apenas é carregado para as esquinas e além. 

Eram exatas dez horas. Exatas para aquele instante, claro, pois eram as dez horas daquele momento e não de nenhum outro. Então a atenção do próprio tempo voltou-se para um pequeno carrinho, empurrado por duas mãos ossudas. 

Há muito eram frágeis, mas o real significado de sua natureza nunca antes fora questionado por algo ou alguém pois, de fato, era desinteressante demais para dar-se atenção ao portador delas. Era já claro que, no panorama mais amplo, sua importância tangenciava diretamente o que e como ele poderia produzir algum meio para manter-se alimentado e, consequentemente, vivo. 

Não era lá muito atraente viver-se sob algum viaduto frio, alto e malcheiroso. Muito menos em pracinhas, cantos cobertos de caixas de papel ou mesmo ao relento, sob graves ameaças das autoridades autoproclamadas e auto sustentadas. Pois então, com esta delonga, ao menos, o tempo demonstrava paciência. 

Não nascera de fato, se considerarmos que nascer, ao menos em certos casos, advém de um recinto hospitalar recendendo a remédios e isento de bactérias ou infecções, não. Acaba-se o conceito inicial. Pois viera ao mundo sob muita garoa e frio, num quarto qualquer de um prédio qualquer. A mãe (se é que assim pode-se nomear àquela que nos dá a luz e nos abandona em seguida) era da trupe dos coitados que sentem tanta pena da própria essência que se esquecem de que ela não é única. 

O pai, bem… neste a natureza pôde dar cabo antes dos fornecedores. O que forneciam e para quem, ainda tentam descobrir. Ao notar que uma noite mais longa e menos consciente resultara em um terceiro elemento na equação da vida, a mulher desesperou-se. Claro, esta é a reação mais comum a quem nunca teve um filho e, repentinamente, vê-se diante de um próprio, entre quatro paredes sólidas, desacompanhada, sob chuva fulgural e meia garrafa de alguma bebida muito forte. 

O sangue quente somente reforçava a sensação gélida que subia ao peito, junto com o fim das contrações. Um vizinha menos tresloucada conseguiu convocar os que sabiam como proceder. Ambos foram levados para um doutor que, num piscar de olhos, assinou dezenas de papeis, ditou centenas de recomendações e pediu que ficassem em observação. 

O ato de observar, claramente, envolve um terceiro elemento que deveria fazê-lo. Mas, como nada naquele lugar onde o mundo tinha outro nome qualquer era como deveria ser, a mulher-mãe botou-se porta a fora, desembestada. 

Uma criança era tudo o que menos precisava! Aliás… não se sabe ainda se uma criança é precisada ou não, mas, quando não se precisa dela, a situação fica muito mais grave do que quando se precisa. Aos trotes ela correu, pisando mesmo sobre a grama tão verde e protegida pelas plaquinhas enferrujadas. A garoa, como nunca, caía em torvelinhos. 

Ela, tão sem ciência, enfiou-se pelo primeiro beco mais asqueroso que pôde enxergar. Lá dentro, onde pobres e desavisadas baratas fugiam daquela mulher gigantesca e envolta em camisolas verdes empapadas de chuva, a desnaturada encontrou um cantinho seguro de insetos, lixo, frio e chuva. Deitou o pobre diabo e, enrolando-o na própria blusa (que lembrara de apanhar antes de fugir), encaixotou-o tal qual uma mercadoria valiosa, mas que se quer trocar na loja. 

Olhou-o uma última vez. Então, numa ínfima piscadela, como se por um segundo toda a insensatez houvesse deixado de existir, ela quis agarrá-lo e apertá-lo contra o seio materno, dando-lhe calor e, se possível, a própria vida. Mas isto não ocorreu pois estes momentos, quando acontecem por acaso, apenas tangenciam a alma e logo viram pó. 

Ela correu, não se sabe para onde, não se sabe porque, não se sabe. 

Um raio despencou dos céus e atingiu em cheio o topo de um daqueles prédios terríveis, soprando metade da luz de uma só vez. Algumas faíscas choveram junto com a água, tocando o asfalto e ricocheteando para as paredes, em estalinhos fortuitos. As nuvens pareciam convergir num ciclo aterrador de farrapos enevoados. O vento rugia aos ouvidos de ninguém, pois não havia viv’alma nas ruas escuras. 

Quem, por um único momento, visse aquilo tudo passando-se ao mesmo tempo do abandono do pobre recém-nascido, poderia jurar que o próprio mundo esbravejava contra aquela injúria, contra aquela crueldade tão vazia quanto a morte em si. No entanto, aquilo tudo tratava-se de algo mais, de algo maior. De algo muito além de nossa parca compreensão de coisa alguma.

Muitos anos se passaram desde que um casal invejoso e sem muitas posses encontrou o menino abandonado. Não tinham indiferença suficiente para abandonar um pequeno moribundo ao relento matinal. Tampouco tinham escrúpulos suficientes para criá-lo bem. Portanto, o pobre coitado fora apenas criado, de fato. 

Aos poucos anos, aprendera que “sim” e “não” eram muito mais que suficientes para garantir pancadas ao pé do ouvido, se é que o ouvido já se deu conta de que possui um pé. No casebre de tábuas reaproveitadas de campanhas políticas e pregos roubados, comia o pouco que lhe davam, vestia o que lhe ordenavam vestir. Mal aprendera como colocar um pé diante do outro, já era a principal fonte de renda. Balinhas de aspecto atrativo, flanelas para polir pára-brisa, escovinha para engraxar sapatos ricos e malabares nada divertidos. 

Nunca aquele pó branco, não, jamais. Segundo sua mãe adotiva (que, por acaso, não possuía muitos dentes e sempre escondia dinheiro entre os seios, num ato grosseiro), aquilo era coisa de pais desonestos e que não amavam os filhos. Eles não; sabiam quais eram os limites de cada um e nada fariam para que ele pudesse encrencar-se. 

Ele sentia, de uma certa forma muito estranha, que nunca devia encrencar-se. A bem da verdade, tinha muita facilidade em aprender o que quer que fosse. Devido a almas bondosas – sim, elas existem, mesmo que se prove o exímio contrário – ganhara livros.

Aprendera a ler, claro. Ia a escola, claro. Mas não tinha amigos. Todos o achavam inferior e desgraçado, devido aos rasgos e à graxa que acabava impregnando-se debaixo das unhas.  Talvez fosse mesmo um desgraçado, mas não ligava. Nunca tivera amigos para saber como era ruim não tê-los. Pois bem.

Ia – vez ou outra – até a capela ali ao lado. Não sabia o que era rezar, muito menos o que era confessar e (talvez menos de tudo) o que era pecado. O padre ria da inteligência do menininho. Dava-lhe tapinhas nas costas, acariciava-lhe o rosto.

Ele não gostava. 

A Catedral da Fé, como ele chamava, mesmo que todos insistiam que o nome era outro (mas como poderia ser diferente?) era muito grande e bonita. Por vezes, bastavam os sinos para alegrá-lo e dar mais ânimo para abordar motoristas tristonhos e cansados. E assim se ia.

O homem – deveria ser pai, sabe-se lá – era cruel e assustador. Muito alto e gordo, sempre chegava tarde e fedendo a algo que o menino não conhecia. Gritava muito, praguejava e, quando nada disso bastava, dava-lhe uns bons pontapés. Ele nunca levantava a camisa, pois isso revelaria marcas das quais ele queria esquecer. Lembrava-se de um dia terrível, no qual o homem exagerara e ele, pobre desgraçado menino, fora parar numa sala de hospital, com algumas boas agulhadas para fechar o corte na perna magra. 

Um tombo, mentiu a mulher, mais amedrontada que maldosa.

Não sabia bem o que era raiva e, portanto, não dava-se ao luxo de senti-la. Apenas rogava (mas o que significava rogar mesmo?) que aquilo acabasse. Não queria que um raio transformasse os dois em gosma, não, jamais. Era bondoso demais para isso. Apenas queria que tudo fosse colorido e feliz, talvez até com sorrisos e abraços, se não fosse pedir demais. 

Num lampejo da vida, alcançava os doze e os treze anos, quase os quatorze. Já era quase um homem, se é que isso importa de algum jeito. Sempre fora gente demais para importar-se com o que diziam. Então, numa convergência do que já fora e do que tinha que ser agora, empurrava um carrinho pela praça da catedral, recheado de coisinhas para vender. 

Os cabelos pretos e ondulados, tais como os da mãe que nunca vira, esvoaçavam diante do rosto dourado de menino desnutrido, encobrindo os olhos cinzentos e embaçados, tristes, profundos, quase cavados no rosto. Usava muitas blusas naquela manhã gelada e recheada de neblina, assim como a que lhe conferira dois tutores muito maus, quando viera ao mundo.

Apesar da manhã rala, muita gente já cruzava as ruas da catedral, encolhida dentro dos fones de ouvido, carregando pastas cheias de papel, mochilas grandes nas costas ou mesmo sem nada nas mãos, apenas com elas metidas nos bolsos para não ficarem roxas de frio. 

Ele estacionou numa esquininha já familiar, tão familiar que dava náuseas. Desdobrou as beiradas da mesinha, apoiando com as tábuas improvisadas que o homem violento pregara. Derramou a toalha azulada e puída, bem como os chocolate, balas e chicletes. Tirou as garrafas térmicas com chá e café da bolsa, aprumou os copos e empertigou-se. Não sabia quem era, não sabia de nada mesmo, só o que tinha lido nos livros. Mas a gente sempre espera que tudo mude, de verdade. 

Risonho com a esperteza de quem não sabe de si, ele começou seu dia.