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Lembro-me que esqueci. Nada mais. Depois disso, um fulgor luminoso espalha se e meus olhos da mente não conseguem mais ver nada. Oh, Deus! Me lembro do rostinho de uma garota… seria minha filha? Minha neta? Não posso nem ao menos me lembrar minha idade… Sei que tenho rugas ao lado dos olhos, a pele não está mais tão esticadinha quanto é quando somos mais moças. Devo ser uma senhora, lá para os meus cinquenta-e-tantos anos. Sinto dores estranhas no peito, deve ser porque sofro de alguma doença cardíaca. Ou apenas porque sofro… de saudade, de tristeza. Sofro de saudade de quem

não posso nem me lembrar. Oh, Deus… seriam aqueles pequenos olhos castanhos e risonhos os de minha netinha querida? Se eu apertar bem os olhos, consigo ainda sentir um perfume doce de morangos… talvez de seus cabelos macios e brilhosos, presos com delicadeza num coque sobre a cabecinha de menina. Mas então, uma vez mais, aquela luz ofusca minhas memórias, afoga meus suspiros e traz para o rosto uma lágrima morna, que desliza pelo canto de meu nariz e pinga sobre o retrato que tenho em mãos. Tão vazio quanto meu passado.